Núcleo de arte e natureza

A palavra Botânica vem do grego Βοτανική (“planta”), que deriva do verbo Tροφή (“alimentar”). Nos dias de hoje, Botânica é a ciência que estuda plantas, algas e fungos. 

A relação entre pessoas e plantas é mais íntima do que podemos perceber. Muito além de produzir oxigênio e nos alimentar, as plantas estão presentes nos processos de produção de bebidas, tecidos, móveis, combustíveis, papéis, medicamentos, cosméticos, além de melhorarem a paisagem e o clima.

Compreendemos que a Arte, com suas diversas facetas e formas de manifestações, também pode ser uma forma de conhecimento e de reflexão sobre a natureza e no intuito de valorizar e estimular o saber, iniciamos um novo campo de diálogo entre arte e natureza na Escola de Botânica que, desde 2016, promove a aproximação entre pessoas e o mundo natural através de cursos, vivências e experiências.

Em exibição a partir de 13/11
Jardim das Bromélias

Selva de Carvalho

Três cenas primordiais compõem a obra “Jardim das delícias terrenas”, pintada por Hieronymus Bosch no início do século XVI: a criação do mundo, o paraíso e o inferno. A semelhança entre Gênesis e Éden é clara na obra. Em ambas, a presença de natureza e da água reforça o que para nós é essencial à vida, enquanto no purgatório, a falta de luz e a aridez se consolidam como o principal pesadelo humano. É nas duas primeiras cenas também que podemos ver plantas psicodélicas que brotam em formatos geométricos em meio a lagos cristalinos, remetendo-nos rapidamente às bromélias, damas das florestas tropicais. Foi a partir de um delicado estudo desse grupo de plantas que a artista paulistana Selva de Carvalho construiu “Jardim das bromélias”, série que ocupa a vitrine da Escola de Botânica de São Paulo.

 

Os desenhos feitos em grafite e nanquim sobre papel, bordados delicadamente com fios de tecidos – o que traz tridimensionalidade às obras –, tiveram seus primeiros traços criados em 2019, a partir de um minucioso trabalho de observação das bromélias, que habita o jardim onde se encontra o ateliê da artista. Seus diversos tamanhos, formas e cores passaram a ser interpretados e reproduzidos nesses suportes, em um diálogo interessante com os formatos do próprio corpo humano e em possíveis pontes que traçam o erotismo presente em tais conformações, vegetais, minerais e animais, e que nos leva diretamente à vida livre e em sua plenitude retratada por Bosh.

 

O interesse específico pela bromélia brotou principalmente pela funcionalidade tão peculiar da planta. Em suas concavidades podem ser armazenadas água e outros micro-organismos, o que permite que elas funcionem como um tipo de berçário e refúgio para diversos seres vivos de pequeno porte, de larvas e outros insetos a sapos e pássaros. Sua composição reproduz o ecossistema vital que vemos nas grandes florestas. Em um estudo cosmológico sobre o reino vegetal, a artista estabelece linhas de pesquisa sobre a ancestralidade primordial da espécie animal, que despertou para o planeta Terra a partir das trocas gasosas entre luz e natureza. É sobre o espetáculo deste encontro que se trata a cena criada neste espaço.

 

Ana Carolina Ralston
curadora

Exposições anteriores
Florestas do Isolamento
Hugo Fortes

Envolto em uma coleção de memórias da Terra que se une em uma área magnética denominada Floresta Amazônica. Foram dez dias de simbiose, abraçado por cheiros, ruídos, cores e formas dessa região que levaram o artista visual brasileiro Hugo Fortes a uma experiência física e emocional que desabrochou na série de pinturas chamada Florestas do Isolamento, reunida agora no Projeto Vitrine, da Escola de Botânica de São Paulo.

 

A viagem ocorreu em 2018 como parte do projeto organizado pelo Programa de Imersão Artística na Amazônia Labverde, que proporcionou a 15 artistas esse mergulho na biodiversidade que circunda os rios Negro e Amazonas, chegando à Reserva Florestal Adolpho Duke, fundada há quase 60 anos em homenagem ao botânico e etnólogo austríaco, considerado um dos pioneiros no estudo da flora amazônica. A experiência rendeu não apenas frutos à época, mas, passados dois anos, o processo de isolamento social que vive o mundo trouxe uma reativação dessa memória em Fortes, que buscou nas fotografias realizadas no período amazônico o elo que precisava para pintar a série. 

 

Feitas em diferentes tamanhos de papel, as obras envolvem o espectador em um instigante jogo de perspectiva e profundidade, misturando pinceladas figurativas e abstratas – cerne das produções pictóricas anteriores de Fortes. Tal união proporciona uma aproximação à experiência do artista na mata, que mostra a adversidade de distinguir espécies animais e vegetais pela densidade vital do próprio bioma, que faz perder-se dentro dele. Uma vida pulsante que se emaranha pelo espaço ao redor, confundindo e deslumbrando o olhar. Diferentemente de produções anteriores, mais soturnas e densas, que resgatam e discutem a fragilidade da vida, a série produzida durante o isolamento social e exibida pela primeira vez em conjunto vibra a cor, a luminosidade e a energia do meio ambiente em sua potência máxima. Um louvor à luz e à vida presente na floresta.

 

Pesquisador, professor e livre docente em temas que circundam as relações entre arte contemporânea e natureza, o artista fortalece o estudo e a produção artística que une esses dois segmentos. Sua obra coloca a arte como dispositivo poético para reflexões sobre os impactos causados pelos seres humanos no meio de forma delicada e potente. O reflexo de tal ciência está diante de nossos olhos, na união de fragmentos dessa floresta nascida em isolamento e baseada na experiência humana de estar em sintonia total com nossa mais pura forma. 

 

Ana Carolina Ralston
curadora

Projeto Vitrine

 

A exposição pode ser vista através da vitrine da Escola de Botânica. Devido a pandemia do Covid-19, ainda não recebemos visitas em nosso espaço físico e a vitrine pode ser vista por quem passa pela rua.

terça a sexta, das 11 às 17h

sábados das 11 às 14h

Rua Imaculada Conceição, 30, Santa Cecília, São Paulo

Florikültür sp. / Camila Rocha

O universo vegetal nos observa, reage a nossa existência, interage aos nossos movimentos e sentidos. Em uma espécie de pesquisa antropológica pela perspectiva da própria natureza, a artista paulistana Camila Rocha desabrocha sua produção em Florikültür sp., primeira exposição do ciclo de mostras do Projeto Vitrine, da Escola de Botânica de São Paulo.

 

Kültür significa cultura em turco, língua do país em que a artista vive parte do ano e onde aconteceu a primeira edição dessa celebração à “cultura da flora”, em 2014. As iniciais da cidade seguem a nomenclatura botânica na versão paulistana, reforçando o propósito do espaço, em que a sabedoria de flores, folhas raízes e seu rizoma é estudada e compreendida por meio de uma relação frutífera entre reinos animal e vegetal, entre nós e a natureza.

 

Aqui, na Escola de Botânica, Camila apresenta alguns dos diversos suportes em que trabalha: o desenho, em uma série de ilustrações botânicas feitas em aquarela; gravuras de tais espécies estudadas pela artista tanto em seus mergulhos pelas florestas tropicais, quanto pela observação realizada no seu próprio ateliê; e pinturas, com as quais ela constrói um tipo de glossário natural do que o mundo vegetal nos oferece. A tridimensionalidade de seu trabalho chega por meio de suas esculturas/plantas, espécies imaginárias que ganham vida ao saltarem do universo bidimensional. Feitas com telas e tecidos recortados, pintados e podados, elas desenvolvem-se em diferentes formas, tamanhos e cores.

 

Ao passear entre as obras, a artista nos permite uma reconexão com nossa própria memória afetiva do universo natural. Assim, o olhar do visitante capta as nuances de luz e perspectiva impressas em cada produção. Uma imersão que une arte e meio ambiente dentro de um espaço que nasceu com o intuito de possibilitar o estudo desse reino que alimenta a nós, seres vivos, em todas as esferas.

 

Ana Carolina Ralston
curadora

Assista a live sobre a exposição

Cinco Anos de Escola de Botânica

A primeira exposição, de julho a agosto de 2021, marcou a ocupação do novo endereço, no bairro da Santa Cecília, em São Paulo. A Escola de Botânica ocupou sua vitrine com a exposição Cinco Anos da Escola de Botânica, que apresentou elementos do nosso universo de pesquisa e ensino. 

Fotos desta página: Felipe Fontoura

Hoegaarden, a apoiadora do Projeto Vitrine

Hoegaarden é a primeira cerveja Witbier do mundo. 

As primeiras cervejas de trigo eram azedas. Graças aos monges belgas e à sua mistura inusitada de semente de coentro e casca de laranja, nasceu a Hoegaarden, e com ela, o estilo Witbier. Semente de coentro e casca de laranja não são ingredientes "típicos" de cervejas, mas juntos tornam a Hoegaarden refrescante, com toque cítrico e fácil de beber.

Saiba mais em hoegaarden.com.br

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