Projeto Vitrine
Ciclo de exposições na vitrine da Escola de Botânica em 2021
Apoio: Hoegaarden

Jardim das bromélias
Selva de Carvalho

Três cenas primordiais compõem a obra “Jardim das delícias terrenas”, pintada por Hieronymus Bosch no início do século XVI: a criação do mundo, o paraíso e o inferno. A semelhança entre Gênesis e Éden é clara na obra. Em ambas, a presença de natureza e da água reforça o que para nós é essencial à vida, enquanto no purgatório, a falta de luz e a aridez se consolidam como o principal pesadelo humano. É nas duas primeiras cenas também que podemos ver plantas psicodélicas que brotam em formatos geométricos em meio a lagos cristalinos, remetendo-nos rapidamente às bromélias, damas das florestas tropicais. Foi a partir de um delicado estudo desse grupo de plantas que a artista paulistana Selva de Carvalho construiu “Jardim das bromélias”, série que ocupa a vitrine da Escola de Botânica de São Paulo.

 

Os desenhos feitos em grafite e nanquim sobre papel, bordados delicadamente com fios de tecidos – o que traz tridimensionalidade às obras –, tiveram seus primeiros traços criados em 2019, a partir de um minucioso trabalho de observação das bromélias, que habita o jardim onde se encontra o ateliê da artista. Seus diversos tamanhos, formas e cores passaram a ser interpretados e reproduzidos nesses suportes, em um diálogo interessante com os formatos do próprio corpo humano e em possíveis pontes que traçam o erotismo presente em tais conformações, vegetais, minerais e animais, e que nos leva diretamente à vida livre e em sua plenitude retratada por Bosh.

 

O interesse específico pela bromélia brotou principalmente pela funcionalidade tão peculiar da planta. Em suas concavidades podem ser armazenadas água e outros micro-organismos, o que permite que elas funcionem como um tipo de berçário e refúgio para diversos seres vivos de pequeno porte, de larvas e outros insetos a sapos e pássaros. Sua composição reproduz o ecossistema vital que vemos nas grandes florestas. Em um estudo cosmológico sobre o reino vegetal, a artista estabelece linhas de pesquisa sobre a ancestralidade primordial da espécie animal, que despertou para o planeta Terra a partir das trocas gasosas entre luz e natureza. É sobre o espetáculo deste encontro que se trata a cena criada neste espaço.

 

Ana Carolina Ralston
curadora

Assista a live sobre a exposição

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