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A história da papoula



As papoulas são plantas herbáceas de diferentes gêneros da família Papaveraceae. As papoulas são conhecidas há mais de 6 mil de anos, cultivadas e utilizadas por diferentes civilizações, por suas propriedades medicinais. O gênero Papaver abrange 118 espécies diferentes.


A espécie Papaver somniferum é conhecida como papoula-dormideira, papoula-do-sono ou papoula-do-ópio, é anual e cresce principalmente no bioma temperado. É utilizada como veneno, planta ornamental e medicinal, tem usos ambientais e sociais e para alimentação. É nativa da região do Mediterrâneo (Argélia, Baleares, Ilhas Canárias, Córsega, França, Itália, Líbia, Madeira, Marrocos, Portugal, Sardenha, Sicília, Espanha e Tunísia) e foi introduzida principalmente em regiões do hemisfério norte: Europa, Ásia e América do Norte.


Suas sementes eram consumidas pelas antigas civilizações da Suméria, Mesopotâmia e Babilônia há mais de 4.000 anos. A primeira descrição de seus efeitos medicinais foi feita pelo médico grego Hipócrates (460 - 370 AEC).


A Deusa Papoula


Registros da arte da Civilização Minoica (Ilha de Creta), incluem uma figura feminina que ficou conhecida popularmente como Deusa Papoula.


Sua cabeça é adornada por uma coroa com os frutos da planta, que apresentam formato de urna.


Na imagem ao lado, a Deusa Papoula, do Santuário do período Pós-palácio ( LM III, 1400–1100 a.C.) - Gazi, Creta.


O cultivo da espécie Papaver somniferum no Brasil necessita de autorização da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. No mundo, diferentes legislações regem diferentes autorizações para cultivo da planta, comercialização das sementes e legalidade do ópio e das substâncias obtidas a partir deste.


Na jardinagem e paisagismo, diferentes gêneros e espécies de papoula são livremente cultivadas para fins ornamentais, apresentando cores branca, laranja, amarela, rosa e vermelha.


A popular papoula californiana é uma espécie pertencente ao gênero Eschscholzia, e é originária da América do Norte.


Já a papoula 'excelsior' (Oreomecon nudicaulis) é originária da faixa entre Sibéria e Alaska.


Ao lado, ilustração da espécie Papaver somniferum, de Köhler's Medizinal-Pflanzen in naturgetreuen Abbildungen mit kurz erläuterndem Texte :. Gera-Untermhaus :Fr. Eugen Köhler,[1883-1914].



Outra espécie de papoula muito comum na jardinagem é a Papaver rhoeas, conhecida como papoula-brava, papoula-das-searas ou papoula-vermelha, nativa do Norte da África e Eurásia, e introduzida em regiões de clima temperado por quase todos os continentes. Campos floridos de papoula vermelha foram retratados pelo pintor impressionista francês Claude Monet.


Campos de papoula em Argenteuil, de Claude Monet (1873)

O ópio


A palavra ópio é originária do grego ὄπιον ("ópion"), derivada de ὀπός ("opós", suco vegetal). Documentado em Latim por Plinio, (como opium), era extremamente conhecido na Grécia Clássica por seus efeitos, citado na Odisseia de Homero. Entre os romanos, o ópio era chamado de lachryma papaveris ("lágrima da papoula").



A distribuição do ópio pela Europa se deu através dos comerciantes árabes, que o recolhiam no Egito, para ser levado através das rotas do Ocidente e do Oriente.


O ópio é obtido a partir do látex de frutos imaturos (verdes) da espécie Papaver somniferum. Esse látex é rico em alcaloides analgésicos como a morfina,  não analgésicos, como a papaverina e a noscapina, além dos opiatos codeína e tebaína.


O processamento químico da morfina resulta na obtenção da heroína e de opioides sintéticos de uso medicinal.



A morfina foi isolada pela primeira vez entre 1803 e 1805 pelo farmacêutico alemão Friedrich Sertürner. O nome da substância veio da mitologia grega: Morfeu é considerado o deus do sonho.



Morfeu e Hipnos


De acordo com a Mitologia Grega, Morfeu (o deus do sonho), cujo nome indica a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas.


O quadro Sleep de Jean-Bernard Restout (1771) destaca as papoulas do ópio.

Hipnos (o deus do sono) é irmão de Morfeu e ambos são representados em diversas pinturas com flores e frutos de papoulas nas mãos.


Hipnos e Tânato, de John William Waterhouse.

Segundo a mitologia grega, em passagem pela cidade de Mecone, a deusa Deméter (filha de Reia e Cronos), em busca de sua filha Perséfone, cortou um dos frutos da papoula e provou do ópio, esquecendo-se temporariamente de suas tristezas e preocupações. O culto à Demeter dentro das tradições dos Mistérios de Elêusis, envolvia o uso do ópio pelas iniciadas na chegada do inverno. O poeta grego Teócrito descreveu Deméter como uma deusa que carregava feixes e papoulas nas mãos.


Citado em famosos papiros egípcios no preparo de remédios, o ópio esteve presente em diversos momentos históricos entre a Antiguidade e o Renascimento, sendo estudado por Dioscórides, Teofrasto, Galeno, Avicena e Paracelso.


Para os romanos, as papoulas e o ópio eram um forte símbolo do sono e da morte, e foi amplamente utilizado em assassinatos. Em duas das passagens mais controversas da história, Agripina, esposa do Imperador Cláudio, e posteriormente seu filho Nero teriam utilizados os serviços de Locusta, especialista em venenos, nas disputas pelo poder.


Em 1701, o livro Mysteries of Opium Reveal'd foi publicado pelo médico inglês John Jones e é considerado o primeiro tratado específico sobre a substância.



As papoulas também habitam nosso imaginário nos contos de fadas. Em O Maravilhoso Mágico de Oz (livro infantil de Frank Baum, publicado em 1900, posteriormente adaptado para o cinema e lançado como O Mágico de Oz, em 1939), um dos desafios de Dorothy e sua turma de amigos para alcançar a Cidade das Esmeraldas é atravessar um campo de papoulas que foram 'envenenadas' pela vilã da história.


Frota chinesa sob bombardeio britânico, de E. Duncan (1843)

As Guerras do Ópio


Os conflitos armados entre Grã-Bretanha e China aconteceram entre 1839-1842 e 1856-1860, e também ficaram conhecidos como Guerra Anglo-Chinesa. No século XIX, a Grã-Bretanha apresentava alto desenvolvimento industrial, necessitando cada vez mais de grandes quantidades de matérias primas a baixo custo, assim como novos mercados para seus produtos industrializados.


As atividades comerciais europeias visavam o Extremo Oriente (Ásia Oriental). Índia e China despertavam enorme interesse nos ingleses: havia grande abertura junto do mercado indiano para o comércio exterior, mas a China (produtora de seda, porcelana e chá - este último vendido a toneladas para os britânicos) mantinha muitas restrições ao comércio exterior, sendo Cantão o único porto aberto aos estrangeiros. Entretanto, os chineses não demonstravam muito interesse nos produtos de fora, o que gerava défices ao comércio britânico.


Depósitos de ópio da Companhia das Índias Orientais na Índia

O ópio, produzido na Índia e em regiões do Império Otomano, o único produto que despertava interesse dos chineses, foi ilegalmente introduzido na China por comerciantes ingleses e norte-americanos. Em 1830, os ingleses conquistaram exclusividade comercial em Cantão, e o ópio chegou a representar metade de todas as exportações inglesas para a China. Apesar de vários decretos que proibiam o comércio de ópio desde 1800, o consumo da droga só aumentava e comprometia a saúde de soldados e da população, assim como desvalorizava o preço da prata.


Em 1839, marinheiro britânicos assassinaram um súdito chinês, gerando expulsão de todos os ingleses e confisco de 20 mil caixas de ópio dos depósitos britânicos.


Em consequência, a Segunda Guerra do Ópio teve início em 1856, culminando na tomada de regiões estratégicas do comércio chinês, assim como da cidade de Pequim, a capital do império, em 1860, pelo oficial Lord Elgin.



Sementes de papoula na culinária


As sementes de papoula são extraídas da planta seca e são popularmente utilizadas em pães, saladas, massas, bolos, tortas, salada de frutas, compotas e biscoitos, substituindo outras sementes oleaginosas.


No Brasil, a comercialização da semente de papoula é controlada pela ANVISA (Resolução RDC nº 239, de 28 de agosto de 2002) e importadores desta especiaria devem cumprir diversas regras, que algumas vezes tornam o produto difícil de ser encontrado. As sementes comercializadas devem ser provenientes de cultivos lícitos comprovados e não podem apresentar capacidade germinativa.


O consumo de sementes de papoula pode gerar um resultado de falso positivo para presença de ópio em testes de detecção de drogas.



A papoula e o Dia da Lembrança (Remembrance Day)


A papoula vermelha é o símbolo do Dia da Lembrança (Remembrance Day), também conhecido por Poppy Appeal ou Poppy Day, celebrado no Reio Unido e países membros da Comunidade das Nações em 11 de novembro para homenagear veteranos de guerra que perderam suas vidas.



O dia foi escolhido em virtude da data da assinatura do Tratado do Armistício entre a Alemanha e as nações aliadas, que marcou o fim a Primeira Guerra Mundial, em 1918. Foi o Rei George V que iniciou a tradição do Dia da Memória, às 11h do dia 11/11, dedicando dois minutos de silêncio para que o pensamento de todos pudesse ser concentrado na lembrança de membros das forças armadas e civis.


Já a escolha da papoula está associada ao fato de terem sido as primeiras plantas que floresceram nos campos de batalha, logo após o fim da guerra. Marca registrada da Royal British Legion (Legião Britânica Real), a venda de broches de papoula na ocasião é realizada por voluntários e arrecada fundos para ex-combatentes. O vermelho das pétalas também é associado ao sangue derramado nos conflitos, remetendo ao desejo de um futuro de paz.



Plantações ameaçadas


Desde 2015, fazendeiros indianos do estado de Madhya Pradesh relatam que as plantações de papoulas do ópio são atacadas por bandos de papagaios entre os meses de março de abril, quando acontecem as colheitas. Os agricultores contam que os prejuízos na queda da produção foram agravados quando os papagaios também aprenderam a se aproximar silenciosamente das plantações, sem chamar a atenção.



Sob efeito de plantas


No livro Sob efeito de plantas, o jornalista e professor Michael Pollan aborda a história e os efeitos psíquicos de três drogas vegetais — entre elas o ópio - trazendo aspectos que vão muito além da classificação redutiva das substâncias psicoativas em ilícitas e não-ilícitas.



Por: Patrícia Dijigow



Referências bibliográficas:


O uso do ópio na sociedade romana - Bruno Trancas, Nuno Borja Santos, Luís D. Patrício

Opium: A History - Martin Booth

Sob efeito de plantas - Michael Pollan

Uma breve história do ópio e dos opióides - Danilo Freire Duarte, TSA


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