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Sangue de dragão e a confusão dos nomes populares


O estudo da Botânica para compreensão e conhecimento das plantas é fundamental para as pessoas que trabalham em diversos setores que lidam direta ou indiretamente com ingredientes vegetais ou matérias primas oriundas de plantas, como por exemplo o comércio de infusões e blends, ervas, especiarias e  temperos, produtos fitoterápicos, óleos essenciais e cosméticos naturais.


Realizar pesquisas e saber quais fontes consultar para levantamento de informações através do nome científico da espécie são algumas práticas que evitam as confusões geradas pelos nomes populares (pelos quais algumas plantas são conhecidas), permitindo que as informações sobre a planta em questão sejam compartilhadas com precisão e confiabilidade.


Nesta matéria trazemos e esclarecemos uma grande confusão gerada por pesquisas baseadas exclusivamente em buscas através do nome popular.


A espécie Dracaena cinnabari é nativa e endêmica para a ilha de Socotra.


Talvez você já tenha visto uma foto ou ilustração da planta acima. Esta planta é uma espécie nativa e endêmica para a ilha de Socotra (no Oceano Índico), cujo nome científico é Dracaena cinnabari, da família botânica Asparagaceae. Popularmente, recebe o nome de árvore do dragão, árvore sangue de dragão ou dragoeiro, em virtude de sua resina de cor vermelha que é extraída das folhas, cascas do tronco e galhos. A população da ilha elabora remédios caseiros, antissépticos bucais, cosméticos e também tinge fibras naturais com essa resina. O epíteto "cinnabari" é uma referencia à cor vermelha da seiva.


Pode atingir aproximadamente nove metros de altura e quarenta centímetros de diâmetro de tronco. Como o nome de seu gênero revela, ela é uma espécie de dracena - uma monocotiledônea. Sua copa é densamente compactada e apresenta o formato de guarda-chuva. As folhas são longas, rígidas e medem entre 30 e 60 centímetros de comprimento, sempre agrupadas em densas rosetas na extremidade dos ramos.



A ilha de Socotra possui uma biodiversidade única, pois muitas de suas espécies somente são encontradas em seu território, que tem clima semiárido e relevo composto por planícies costeiras, montanhas de granito, morros de pedra calcária e platôs. Devido ao aspecto ímpar de sua vegetação, as imagens desta ilha percorrem o mundo e se popularizaram até mais do que muitas espécies que estão bem mais próximas de nós.


Classificada em estado vulnerável pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, a planta quando jovem é alvo dos rebanhos criados na ilha, que dela se alimentam e dificultam a propagação da espécie, que apresenta crescimento muito lento.


É muito frequente a associação equivocada da imagem da árvore sangue de dragão endêmica de Socotra ao nome científico de uma outra espécie vegetal, que também é conhecida popularmente como sangue de dragão, sangue-de-grado ou dragoeiro: Croton lechleri. Extremamente importante na medicina popular da região amazônica, o Croton lechileri é uma árvore da família Euphorbiaceae e nativa da Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Brasil. Pode atingir até 20 metros de altura e é uma eudicotiledônea.


Segundo Flora do Brasil, no Brasil a espécie pode ser encontrada no Estado do Acre, na Floresta Ciliar ou Galeria e na Floresta de Terra Firme da Amazônia. Outras espécies do gênero Croton podem ser encontradas em outras regiões do território brasileiro, algumas também conhecidas pelos mesmos nomes populares e propriedades medicinais, como Croton urucurana, Croton salutaris e Croton palanostigma.


Croton lechleri (foto de Dick Culbert from Gibsons, B.C., Canada, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons)


O látex viscoso das árvores maduras de Croton lechleri quando coletado apresenta a cor vermelha escura mas, se extraído de árvores mais jovens possui cor bem mais clara ou levemente alaranjada. Extremamente popular, o látex é comercializado em pequenos frascos por diversas empresas e apresenta grande poder cicatrizante, sendo utilizado há séculos pelas comunidades tradicionais no tratamento de várias doenças e problemas gastrointestinais, respiratórios, infecções da pele, feridas e picadas de insetos. As propriedades despertam o interesse de grandes indústrias farmacêuticas que pesquisam a atuação desses princípios ativos em casos de diversas formas de diarreias (inclusive causadas pela cólera e HIV/AIDS), herpes e também seu efeito sobre alguns tipos de câncer. Algumas patentes de princípios isolados já foram registradas no exterior. A Universidade do Vale do Taquari (Univates) teve seu pedido de registro de patente de pomada cicatrizante aceito em 2021, destinado ao tratamento de úlceras de pacientes diabéticos.


A planta é de grande interesse nacional e está incluída na Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do Ministério da Saúde de 2006. Seu principal princípio ativo é o alcaloide taspina, responsável pelas propriedades antiinflamatória, antibiótica e cicatrizante.


Outros estudos são realizados para testar e acompanhar o desenvolvimento inicial da árvore em diferentes classes de solos e corretivos sob níveis de luminosidade na Amazônia, necessários para viabilizar a domesticação da espécie em pro de sua conservação e manejo sustentável.


Para a colheita do látex através de cortes na casca da árvore é necessária muita habilidade e um profundo conhecimento da planta para não debilitá-la, o que provocaria sua morte. Ao contrário da seringueira (Hevea spp., também da família Euphorbiaceae), cujos laticíferos (as estruturas internas da planta que produzem o látex) são articulados e se regeneram com facilidade se cortados, o Croton lechleri não possui laticíferos articulados.


Os estudos dos laticíferos da espécie foram realizados pela seção de micromorfologia do Royal Botanic Gardens em Kew, na Inglaterra, com amostras das cascas da espécie que foram enviadas para análise de cientistas, diante de dificuldades iniciais enfrentadas nas colheitas por empresa farmacêutica que passou a trabalhar com as comunidades tradicionais peruanas.


O método para obtenção do látex de Croton lechleri varia conforme a tradição da região, podendo envolver ou não a derrubada da árvore.


A derrubada da árvore é preferencialmente realizada entre 4:30 e 9:30h da manhã e somente em árvores que tenham atingido idade entre 6 e 7 anos e um diâmetro mínimo de 27 centímetros de caule. Algumas comunidades realizam o replantio em proporção de 3 a 5 árvores plantadas para cada árvore derrubada, que além de grande fonte de remédios, gera  empregos para indígenas e agricultores na floresta tropical da Amazônia peruana. Na Bolívia e no Estado do Acre, a colheita é feita sem a derrubada, através de cortes bem superficiais no tronco.


Embora o látex (também chamado de seiva resinosa) do sangue de dragão (Croton lechleri) seja um dos medicamentos tradicionais mais populares da América Latina, sua imagem permanece erroneamente associada à planta de Socotra (Dracaena cinnabari), sendo continuamente replicada em blogs, artigos, rótulos de produtos, vídeos e reportagens, em virtude da confusão gerada pelo fato do mesmo nome popular ser aplicado para ambas as espécies, ainda que sejam tão distintas em aspecto, distribuição geográfica e hábito.


Este tipo de confusão não ocorre com os nomes científicos, pois universalmente cada espécie recebe uma única identificação binomial, de forma que em qualquer lugar do mundo seja reconhecida corretamente e possa ser comparada com as amostras depositadas em herbários, juntos com as descrições sobre morfologia, ocorrência, hábito, porte, época de floração e tantas outras informações sobre a espécie. 


Por outro lado, o exemplo das duas plantas conhecidas pelo nome "sangue de dragão" também não é o único a gerar dúvidas sobre qual espécie está sendo de fato abordada.


Lembramos que não existe certo ou errado em relação aos nomes populares, pois eles representam o modo como a planta é denominada pela cultura local de uma região, o que é parte do conhecimento tradicional (essencial para a Etnobotânica).


Destacamos a relevância das diversas disciplinas da Botânica, que permitem ampliar o conhecimento de diferentes aspectos das plantas, sua nomenclatura e a importância dos nomes científicos, valorizar trabalhos acadêmicos e as amplas pesquisas que compõe os bancos de dados científicos de floras do mundo todo e acervos de imagens da biodiversidade (não apenas como formas eficientes de evitar confusões para que informações e imagens que correspondam corretamente à espécie abordada, transmitindo segurança e confiabilidade - inclusive ao consumidor final de produtos de origem vegetal), como também pelas poderosas ferramentas para que possamos cada vez mais conhecer e preservar as espécies do território brasileiro e nos aproximar da incrível natureza à nossa volta.



Por: Patrícia Dijigow

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